Lembranças do tempo de aluno da publicidade: havia os bens de consumo passíveis de compra por impulso e aqueles mais caros e duráveis, onde a sedução do consumidor tinha de ser cuidadosamente realizada. Afinal de contas, um bem de consumo durável não era um chiclete. Era uma casa, uma geladeira ou, por exemplo, um carro.
Um carro. Que carro escolher quando você quer comprar um? Não sei você, mas para qualquer coisa que seja mais cara que um chiclete e que vá ficar usando por alguns anos, gosto de saber todos os detalhes a respeito. Preço, consumo, potência e até porque a marca ganhou o nome que ganhou, se o modelo já saiu de linha no exterior, etc. Chicletes são descartáveis ao extremo, mas carros, câmeras e computadores não o são. Você masca eles por alguns anos.
O que nos leva à porta da concessionária. No final de 2008 estava pensando em trocar de carro. O modelo que eu tinha já estava com alguns anos de uso e desvalorizando rápido. Depois de pesquisar o que achava bom, bonito e poderia pagar, era hora de ir conversar com o vendedor. Só tem um problema. Tradicionalmente odeio vendedores.
Até o ponto onde eu me preste a entrar em uma loja, já sei exatamente o que estou buscando e as características do produto, encontrando habitualmente vendedores que sabem menos do que eu sobre o produto que estão vendendo e que não podem responder às minhas perguntas fuinhas sobre o que ainda não sei. Não raro, corto a conversa fiada e digo ao vendedor:
-Abra uma caixa e me dê o manual.
Se não der, baixo o manual da internet e compro de um site de vendas online. Mas enfim, um carro não dava para fazer assim.
O modelo que escolhi era um Peugeot 206 SW, preferencialmente branco. Em um sábado à tarde, entro na concessionária e em segundos um vendedor me aborda.
-Boa tarde, meu nome é Fulano. Em que posso ajudar?
-Gostaria de ver um carro da sua marca.
Sentamos à mesa. O vendedor é solícito.
-Qual modelo?
-Um 206 SW.
O vendedor torce o nariz.
-Olha, esse modelo está saindo de linha. Só temos a sobra. A rapa do tacho.
-Mas está no site.
-O que tem é o que sobrou. Agora estamos oferecendo o 207.
-Hm. Tem um aí?
Levantamos. Ele aponta e me aproximo do modelo. Um leão gigante e desproporcional desequilibra o design do capô. Para o meu gosto, o 207 é bem mais feio do que o 206. E este modelo é escuro.
-Vem completinho ar-direção-trioelétrico...
-Eu queria branco.
-Branco não existe.
-Mas tem no site. Configurei um 206 branco.
-Olha, trabalho há mais de dois anos aqui e nunca vi um modelo branco.
-Mas ESTÁ NO SITE. Se o site é uma promessa de compra e venda então você pode pedir para a fábrica, não pode?
Com a pachorra arrogante de um vendedor desleixado, responde:
-Posso até pedir. Mas não tenho como lhe dar previsão e é bem capaz que nem venha.
-Mas se oferece a opção, porque não posso comprar?
-Em São Paulo os táxis são brancos.
-Mas não estamos em São Paulo, estamos em Porto Alegre!
-Em São Paulo os táxis são brancos, então a Peugeot não faz carros brancos.
-Mas a fábrica é no Rio, vendendo para Porto Alegre...
-Mas não tem.
Seria a vingança do virtual sobre o real? Seria o retorno do descolamento entre a camada de dados da internet e o mundo "real" dos átomos? Ou seria simplesmente a idiotice rematada de um vendedor que acha que está fazendo favor ao vender chicletes de ouro? Ainda assim, perseverei.
-De qualquer maneira. Quanto custa o carro?
O vendedor disse.
-É mais do que custa no site, no "Monte seu carro".
-Esse aqui tem pintura metálica.
-Eu não quero pintura metálica. Quero pintura sólida.
-Não temos. Metálico é o que temos aqui. Vamos ver um modelo?
No caminho, passei por uma versão conversível, obviamente carésima e muito atraente.
-Quanto custa este? É super!
-Uns cem mil reais a mais do que o que você está querendo pagar.
Chega! Prometem no site e não cumprem? Chineleiam os próprios modelos? Fazem pouco do consumidor? Querem empurrar o que têm e não o que o consumidor está afim? Vão pastar! Ou vender chicletes onde seguramente vão empurrar Ping Pong quando o consumidor pedir Trident.